Alunos a colaborar numa atividade escolar que promove diferentes formas de aprendizagem

O Cérebro e a Escola: Estilos de Aprendizagem | Escola Note

29 Sep 2026

O cérebro e a escola: será que todos aprendemos da mesma forma? 

Existem diferentes tipos de aprendizagem? A motivação escolar e o processo de aprendizagem estão relacionados? Vamos lá desmistificar! 

 

Na mesma sala de aula, há alunos que preferem fazer esquemas, outros a quem basta uma explicação e até existe quem precise de colocar em prática um conceito para o conseguir perceber verdadeiramente. Mas será que isto significa que existem diferentes tipos de aprendizagem? A verdade é que a resposta é mais complexa do que aquilo que pode parecer. Nem todos os alunos aprendem da mesma forma. Contudo, isto não quer dizer que cada criança tenha apenas uma única maneira fixa de aprender.  

 

Existem vários fatores que podem influenciar a experiência de aprendizagem de um aluno. O ritmo, os conhecimentos prévios, os interesses, a motivação e as próprias estratégias utilizadas, tanto por ele como pelo professor, são alguns deles. Com o Dia Mundial da Saúde Mental à porta (10 de outubro), é mais pertinente do que nunca perceber que relação existe entre cérebro, escola, aprendizagem e, acima de tudo, bem-estar. Se és pai ou professor, este pode ser o artigo que te vai ajudar a perceber cada criança e jovem, bem como a encontrar estratégias que podem funcionar melhor, de situação para situação. Mas vamos por partes.  

 

Como é que o cérebro aprende? 🧠 

E sim, neste caso estamos a falar também do teu cérebro, como docente. O processo de aprendizagem, no cérebro, começa sempre da mesma forma: através das ligações entre neurónios, as chamadas sinapses. Sempre que vivemos uma experiência nova, essas ligações fortalecem-se. É o que os cientistas chamam de plasticidade sináptica e é a base biológica de toda a aprendizagem.  

Sabias que…🤔 

A força destas ligações entre neurónios aumenta durante o dia, enquanto estamos acordados, e é reorganizada durante a noite? Não é da “boca para fora” quando se diz que uma boa noite de sono é tão importante como uma boa hora de estudo. As oscilações cerebrais que ocorrem durante o sono são essenciais para consolidar a memória e reorganizar as redes neuronais.  

 

Para além de tudo isto, o cérebro faz ainda uma outra coisa: elimina as ligações que quase nunca são utilizadas. Esta ação é apelidada de poda sináptica e funciona como um “limpar” de espaço para que nova informação possa ser adicionada. Isto acaba também por ajudar a reforçar as ligações mais utilizadas. No fundo, é este equilíbrio entre criar e eliminar que faz com o que cérebro se torne mais eficiente, à medida que a criança cresce e se desenvolve.  

 

Há, ainda, uma outra componente de desenvolvimento onde, de acordo com Jean Piaget, todas as crianças passam pelas mesmas quatro fases cognitivas, na mesma ordem. Aqui cada fase traz consigo novas capacidades intelectuais e uma leitura cada vez mais complexa do mundo.   

  • A fase sensório-motora, dos 0 aos 2 anos: onde a criança descobre o mundo através dos sentidos e dos movimentos; 
  • A fase pré-operatória, dos 2 aos 7 anos: com um grande desenvolvimento da sua linguagem e do pensamento simbólico; 
  • As operações concretas, dos 7 aos 11 anos: a criança passa a ser capaz de compreender a realidade a partir do ponto de vista de outra pessoa, e o seu raciocínio ganha maior lógica e coerência. No entanto, essa capacidade de raciocínio ainda se limita a situações concretas, a acontecimentos visíveis e presentes, que a criança consegue observar diretamente; 
  • As operações formais, a partir dos 12 anos: consolida-se por completo a capacidade de raciocínio lógico, formal e abstrato. A criança passa a conseguir refletir sobre cenários hipotéticos e a formar noções éticas mais complexas, como a liberdade e a justiça. É também neste momento que as suas estruturas cognitivas alcançam o grau mais elevado de maturidade. 

 

A reter: cada coisa acontece na altura certa. E, acima de tudo, cada criança tem o seu próprio timing.  

 

Será que todos aprendemos da mesma forma? 👩🏼💻 

A resposta curta é não. Cada aluno chega à escola com uma combinação diferente de conhecimentos prévios, de competências, interesses, motivação e até mesmo experiências. O contexto de cada um é uma fatia bastante relevante deste bolo. Também acontece que uma criança possa precisar de mais ou menos tempo para compreender determinados conceitos.  

 

Vamos imaginar duas crianças a aprender o que são frações. Uma pode perceber facilmente a partir de exemplos visuais ou desenhos, enquanto a outra pode precisar de manipular objetos, resolver exercícios ou de aplicar o conceito a uma determinada situação. Isto não significa necessariamente que uma seja mais “visual” ou que a outra seja “cinestésica”. Pode apenas significar que uma determinada estratégia funcionou melhor naquele momento, para aquele determinado assunto.  

 

Algo que pode ajudar a explicar porque é que uma mesmo explicação resulta com um aluno, mas já não resulta com o aluno seguinte é a “zona de desenvolvimento proximal”, do psicólogo Lev Vygotsky. Esta teoria de aprendizagem representa o espaço entre aquilo que um aluno consegue fazer sozinho e aquilo que consegue fazer com a orientação de alguém mais experiente. Ou seja, duas crianças podem estar no mesmo nível, quando são avaliadas pelo que conseguem fazer sozinhas, mas ter zonas de desenvolvimento proximal diferentes, fruto da interação e aprendizagem com outras pessoas.  

 

Se és professor…🧑🏻🏫 

Pode ser positivo lembrares-te de que o desafio que apresentas em aula pode ser positivo para a aprendizagem e o bem-estar dos teus alunos, mas também é importante que esteja ao alcance das suas competências atuais. Nem tão fácil que aborreça, nem tão difícil que desanime. Este pode ser o mote para que a aprendizagem aconteça.  

É normal que a escola e a aprendizagem não seja uma equação igual para todos os teus alunos. E é aqui que entram os diferentes estilos de aprendizagem.  

Aprendizagem visual, auditiva e cinestésica: o que precisas de saber ✍🏻 

Um dos modelos mais conhecidos para descrever os diferentes tipos de aprendizagem é o VARK. Entre os diferentes estilos de aprendizagem, o modelo VARK continua a ser um dos mais utilizados para explicar as preferências de aprendizagem de cada aluno.  

Criado pelo pedagogo neozelandês Neil Fleming, identifica quatro modalidades sensoriais de preferência na aprendizagem: 

 

  1. Visual 👀: o aluno aprende melhor através de imagens, esquemas e mapas mentais ou vídeos. Aqui, os recursos mais eficazes são as infografias, diagramas, vídeos, gráficos e a utilização de cores; 
  2. Auditiva 👂🏻: o aluno retém melhor a informação, ouvindo, discutindo e debatendo. Os recursos mais eficazes são: podcasts, aulas expositivas, gravações e debates em grupo; 
  3. Leitura/escrita 📚: a aprendizagem é melhor conseguida através de texto escrito e anotações. Nesta modalidade, os recursos mais eficazes são os manuais, artigos, resumos escritos e as listas;  
  4. Cinestésica ✋🏻: nesta abordagem, a aprendizagem está mais associada à experiência, à ação e à aplicação prática da matéria. Fazer, experimentar e sentir são os métodos preferidos e os recursos mais eficazes são laboratórios, simulações e casos práticos.  

 

👉🏻 Existe um quinto perfil - o multimodal - para pessoas que combinam duas ou mais modalidades, de acordo com o contexto e o tipo de conteúdo.  

(No final deste artigo, descobre a nossa checklist "Como posso aprender melhor?" com estratégias práticas para experimentares e descobrires o que funciona melhor para ti!) 

 

E há quem fale também no estilo de aprendizagem reflexivo 🙇🏻 

Este é um estilo que surge noutros modelos de aprendizagem, como é o caso do modelo Honey Alonso, e descreve uma preferência por observar, recolher informação e analisar diferentes perspetivas antes de chegar a uma conclusão. Se numa discussão com a tua turma, existe sempre aquele aluno que prefere perceber bem a situação, ouvir primeiro os colegas e organizar as ideias, talvez este seja o estilo que melhor o descreve. E isto não é melhor nem pior. É apenas uma forma de abordar a tarefa.  

 

⚠️ Mas atenção!  

Uma revisão de mais de 70 estudos concluiu que existe pouca evidência de que ensinar cada aluno de acordo com o seu estilo preferido de aprendizagem melhore, efetivamente, os seus resultados escolares. Estas preferências existem e são reais. Porém, rotular uma criança como só visual ou só auditiva pode, na verdade, limitar o seu potencial. No fundo, não se trata de encontrar uma “caixa” onde podes arrumar cada aluno. O mais importante é disponibilizar diferentes ferramentas de aprendizagem, para que o seu potencial possa ser exponenciado ao máximo. 

 

Porque é que alguns alunos aprendem mais facilmente determinadas matérias do que outros? 📖 

Não é só uma questão de inteligência. São vários os motivos, entre os quais: 

Conhecimento prévio 💼 

A bagagem de conhecimento que um aluno traz consigo influencia a forma como vai compreender uma informação nova. Quando lhe é possível relacionar um conceito com conhecimentos anteriores, por exemplo, pode ser-lhe mais fácil integrar esse novo conceito.  

Métodos de ensino 🧩 

Combinar diferentes recursos e estratégias pode ser mais útil do que procurar a forma “certa” de ensinar. Uma explicação pode ajudar a introduzir um conceito, mas um esquema pode ajudar a organizá-lo. Para o colocar em prática, um exercício ou uma experiência podem ser a melhor opção. E tudo isto vai influenciar a forma como cada aluno aprende.  

Motivação 💪🏻 

A motivação escolar e o processo de aprendizagem andam de mãos dadas e este é, talvez, o fator mais decisivo. A motivação para aprender pode ser:  

  • Intrínseca: quando o interesse nasce da própria pessoa; 
  • Extrínseca: quando depende de recompensas ou objetivos externos; 
  • Ausente: quando ela não existe.  

Individualidade 👤 

Cada aluno precisa do seu tempo para compreender determinada matéria. Há quem precise de mais exemplos, de mais prática ou até de mais tempo para organizar as ideias. E reconhecer estas diferenças não significa baixar expectativas. Significa, sim, reconhecer as características individuais de cada um, procurando formas diferentes de apoiar cada aluno.  

Ambiente 🏫 

A relação entre ambiente escolar e aprendizagem é uma das variáveis mais importantes para o desenvolvimento académico e emocional das crianças e jovens. A relação com o professor, o ambiente que se vive na sala de aula e até mesmo o apoio que existe em casa ou externo extra, são questões que pesam tanto quanto o conteúdo da própria matéria e que em muito podem afetar os diferentes ritmos de assimilação.  

 

Como identificar as diferentes formas de aprendizagem? 🔍 

Para perceberes que tipo de aluno uma criança é, há algumas questões a que podes estar atento.  

  • Os esquemas e as imagens ajudam-no a compreender melhor?  
  • Explicar em voz alta ajuda na compreensão? 
  • Escreve pelas próprias palavras para memorizar?  
  • A prática torna o conceito mais claro? É necessário algum tempo para pensar e observar, antes de responder?  

 

Envolver a própria criança nesta reflexão pode ser uma ajuda para que ela reconheça as estratégias e desenvolva uma maior autonomia. Contudo, isto é útil para perceber o perfil de um aluno. O caso muda de figura quando falamos de uma dificuldade real. E aqui, é importante não se confundir um ritmo de aprendizagem diferente com uma verdadeira dificuldade: 
 

  1. Dificuldades específicas de aprendizagem: como a dislexia; a disortografia e disgrafia; e a Discalculia; 
  2. Dificuldades associadas a funções cognitivas: como défices de atenção, problemas de memória ou dificuldades nas funções executivas; 
  3. Perturbações do neurodesenvolvimento: Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA); Perturbação do Espectro do Autismo (PEA); Défice intelectual; 
  4. Dificuldades emocionais e comportamentais: como a ansiedade, a baixa autoestima académica, dificuldades de integração e a desmotivação; 
  5. Fatores contextuais e ambientais: como um contexto socioeconómico desfavorecido, falta de estímulos educativos nos primeiros anos de vida, recurso a métodos de ensino inadequados ao perfil do aluno e, ainda, um ambiente familiar pouco estruturado.  

 

Segundo um documento da Ordem dos Psicólogos sobre Dificuldades Educativas Específicas, as dificuldades de aprendizagem são relativamente comuns, por exemplo, estudos internacionais estimam que entre 5% a 10% das crianças em idade escolar tenha dislexia. Em Portugal, estima-se que sejam 5,4%, ou seja, uma em cada vinte crianças terá dislexia. 

Assim, importa referir que o diagnóstico correto exige uma avaliação conjunta entre pais, professores e profissionais de saúde. Só assim se poderá distinguir um pequeno obstáculo de uma verdadeira dificuldade. Procurar uma escola para alunos com dificuldades de aprendizagem ou uma equipa de psicologia escolar também pode ser uma opção. O mais importante é que a criança possa ser acompanhada, de forma a colmatar estas questões.  

 

Estratégias para potenciar a aprendizagem de cada criança 🎯 

Ao longo deste artigo tem ficado claro que não existe uma fórmula única ou um “tipo de ensino” mais eficaz. O que pode funcionar é, na verdade, uma combinação flexível de abordagens, sempre de olhos postos em cada aluno.  

 

✅ Checklist para professores: 

  1. Diversifica os estímulos: combina imagem, som, texto e prática; 
  2. Mistura teoria e prática; 
  3. Troca de lugar com o aluno: pede-lhe que explique uma matéria pelas suas palavras, para perceber o que foi apreendido e aquilo que ainda precisa de ser trabalhado; 
  4. Divide os trabalhos por etapas e objetivos;  
  5. Dá espaço para refletir;  
  6. Promove e desenvolve o diálogo, em contexto de sala de aula; 
  7. Deixa que a criança avalie o próprio progresso: no final de cada aula, ou sessão de estudo, ajuda-a a perceber o que já consegue fazer, o que é que ainda não percebeu, que ferramentas ajudaram ou o que é que ainda pode experimentar de outra maneira.  

 

👉🏻 Aprofunda as estratégias da Education Endowment Foundation, as quais ajudam os alunos a tornarem-se aprendizes mais autónomos.  

Coloca este conhecimento em prática. Preparámos uma Checklist também para os teus alunos! Leva-a para a tua sala de aula, mostra-lhes estas estratégias e percebe qual a que melhor funciona com cada um!  

 

A importância do bem-estar emocional no processo de aprendizagem ❤️🩹 

Existe uma dimensão, a do bem-estar emocional, que não pode ficar de fora quando falamos em escola e aprendizagem, segundo a Ordem dos Psicólogos, Afinal, de nada serve teres a melhor estratégia se a criança não estiver bem. Um aluno ansioso, triste ou inseguro, dificilmente vai conseguir concentrar-se, memorizar a informação ou sentir-se motivado - por melhor que seja o método utilizado ou por mais que adeques o processo ao seu perfil de aprendizagem.  

 

Sabias que…❓ 

Segundo o relatório "Global Mind Health 2025", os jovens portugueses apresentam níveis de saúde mental mais baixos do que as gerações mais velhas? E esta é uma tendência que começa, muitas vezes, ainda durante o percurso escolar.  

Claro que estes dados não significam que a escola seja a única responsável pelo bem-estar dos jovens. Mostram, na realidade, porque é que é tão importante olhar para a saúde mental infantil e juvenil, com o contexto escolar como parte da equação. O contexto educativo é um dos ambientes com maior potencial para prevenir e promover a saúde mental em crianças e jovens. A Direção-Geral da Saúde inclui precisamente a promoção da saúde e do bem-estar entre os objetivos da Saúde Escolar e destaca a importância de ambientes educativos saudáveis, seguros e inclusivos. Isto também significa garantir que existe espaço para errar, fazer perguntas, pedir ajuda e experimentar.  

Nunca te esqueças: cada aluno que entra na tua sala tem o seu ponto de partida, a sua bagagem, os seus desafios. E talvez esta seja a melhor resposta à pergunta deste artigo: não, não aprendemos todos da mesma forma. Mas podemos todos aprender melhor, com as condições certas para o fazer.  



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