Mesada ou semanada: qual a melhor opção para ensinar os filhos a gerir dinheiro?
Mesada ou semanada? Descobre as diferenças e ajuda o teu filho a gerir o seu dinheiro de forma responsável e como podes promover hábitos financeiros saudáveis desde cedo.
Os nossos filhos não são pequenos para sempre. Há uma altura em que olhamos para eles e percebemos que já podem assumir algumas responsabilidades. Como gerir o próprio dinheiro, por exemplo. Neste artigo, vamos ajudar-te a perceber se deves optar entre semanada ou mesada, qual o valor da mesada para filhos e de que forma os podes preparar para serem mais informados acerca desta matéria.
💸 A importância da educação financeira desde cedo
Vamos perceber porquê. De acordo com o 1º Barómetro de Hábitos Financeiros, uma iniciativa do Doutor Finanças com a Universidade Católica Portuguesa, foi possível perceber que um terço das famílias portuguesas não falam sobre dinheiro com as suas crianças, até aos seis anos. Isto apenas começa a acontecer entre os 10 e os 15 anos, sendo que apenas 73% dos portugueses o fazem.
A mesada ou a semanada podem ser ferramentas importantes neste processo, ajudando as crianças a desenvolver autonomia e responsabilidade na gestão do dinheiro.
Mas cedo...quando?
👉🏻 A introdução da educação financeira é uma tarefa que, na maior parte dos casos, fica ao encargo dos pais. E este é um tema que nem sempre é fácil de abordar. Basta pensar que, até há alguns anos, era um verdadeiro tabu em muitas casas. Se não tiveste estes ensinamentos em criança, podes contrariar a tendência e tomar a iniciativa. O dinheiro acompanha-nos ao longo de toda a vida e deve ser tratado com naturalidade.
A verdade é que não existe uma idade pré-definida para introduzir este tema na vida dos teus filhos. Contudo, é caso para dizer que quanto mais cedo, melhor. Há especialistas que aconselham começar a fazê-lo entre os dois e os três anos de idade, por uma razão muito simples: costuma ser a partir desta altura que as crianças começam a pedir coisas específicas aos pais. Mas claro que aqui estamos a falar de uma introdução bastante superficial, apenas com a menção de algumas noções e conceitos básicos.
Por exemplo:
- De onde vem o dinheiro e para o que é que ele serve;
- O que são bons hábitos de consumo numa ida às compras;
- O dinheiro não nasce das árvores, mas é fruto do trabalho dos pais;
- O valor do dinheiro, explicando como este permite adquirir coisas;
- O porquê de não se poder comprar tudo aquilo que se quer.
🧠 Lembra-te de que os teus filhos podem não ter capacidades suficientes para perceber estas informações de uma forma aprofundada. A ideia é ir introduzindo estes temas de uma forma bastante básica, com exemplos que eles compreendam e até com a ajuda de livros infantis, por exemplo.
8 livros que podes ter debaixo de olho:
- “Dinheiro”, de Helen Mortimer;
- “Um Cão Chamado Dinheiro”, de Bodo Schäfer;
- “Estou a Aprender a Poupar” e “As Minhas Primeiras Moedas”, de Mara Catherine Harvey;
- “Curso de Como Gerir o Meu Dinheiro”, de Rita Vilela;
- “Aprende a Poupar”, de Mafalda Cordeiro;
- "Guia para Curiosos sobre o Dinheiro”, de Heidi Fiedler ;
- "As Cartas Do Senhor Benjamim”, de Daniel Pereira e Francisco Ferrão.
Sabe quando dar o passo seguinte?
🧒🏻👶🏼 Dos seis aos nove, a conversa já começa a ser outra. Os miúdos entram para a escola, começam a conhecer os números e a aprender a fazer contas. Aqui, é a altura para começar a aprofundar alguns conceitos.
- Introduz o conceito de preço, distinguindo entre o caro e o barato;
- Distingue as compras por impulso, daquelas feitas por necessidade. Os essenciais (como a comida ou produtos de higiene) são prioritários, enquanto os desejos (como os brinquedos ou as guloseimas) ficam para depois. Aqui, é fundamental perceber a diferença entre o “quero” e o “preciso”;
- Inclui-os em pequenas compras, incentivando-os a pagar em dinheiro, fazer as contas e confirmar o troco;
- Apresenta-lhes o mealheiro. Esta é a altura ideal para dizer “olá, pouquinho” e incutir-lhes o conceito de poupança. Às vezes, aquele brinquedo que tanto querem implica juntar dinheiro e guardá-lo para depois: e nada melhor do que um mealheiro para os ajudar a fazer isso.
De miúdos a (quase) graúdos
É costume que, a partir do 5º ano, os nossos miúdos precisem de começar a fazer pequenas compras essenciais na escola. Seja pagando as refeições escolares, ou o próprio material, é aqui que a relação deles com o dinheiro começa a mudar. Assim, esta é a altura certa para os incentivar a gerir pequenas quantias de dinheiro, que podem ser aumentadas de forma gradual e de acordo com as suas necessidades.
A partir dos 16, podemos começar a tratá-los como adultos e no que diz respeito ao dinheiro, também. É já a idade em que podem começar a ouvir falar em conceitos como investimentos, contas bancárias, fundos de emergência, ou outros que tais. Ainda assim, é sempre preciso adaptar a linguagem de filho para filho. É importante procurar por conteúdo descomplicado e temáticas que se adaptem à sua idade e aos seus interesses.
E nunca te esqueças, educar os teus filhos - financeiramente falando - é fundamental para os ajudar a gerir:
- Frustração e espera;
- Tomadas de decisão;
- Empatia e partilha.
📢 O exemplo é sempre dado em casa. Quanto mais cedo começarem as conversas sobre dinheiro, melhor os teus filhos se relacionarão com ele. Além disto, é importante que fiques atento às tuas próprias ações. Se lhes dizes que não se deve gastar dinheiro por impulso, mas depois és o primeiro a fazê-lo, estás a contradizer-te. Nunca te esqueças: as crianças são verdadeiras esponjas e aprendem sempre mais com o que vêm, do que com o que é dito. Por isso, esforça-te para ser um espelho das atitudes que desejas que eles tenham. Com o dinheiro, isso não é diferente.
Mesada ou semanada: Qual a melhor opção?💰
Na realidade, a diferença entre estes dois conceitos está no próprio nome.
A semanada é atribuída todas as semanas; a mesada é atribuída uma vez por mês.
Qual devo escolher?
Não existe uma idade obrigatória para escolher uma opção ou outra. Para crianças mais novas, a semana pode ser um bom ponto de partida. Embora alguns especialistas defendam que a semanada deverá ser atribuída até aos 12 anos, vai sempre depender daquilo que resulta melhor para o teu filho. Nenhuma criança é igual, mas o que realmente importa é que seja uma ferramenta que os ajude a aprender a gerir o dinheiro que lhes é entregue.
👉🏻 Tens dúvidas se o teu filho está, ou não, pronto para receber uma semanada? Podes sempre fazer uma experiência. Oferece-lhe uma pequena quantia de dinheiro e percebe de que forma é feita a gestão. 🪙 Outra dica: vamos imaginar que lhe queres dar 4€. Não o faças dando-lhe apenas duas moedas de 2€. Opta por várias moedas até perfazer esse valor, permitindo-lhe que divida o dinheiro para cada dia e possa fazer a gestão de uma forma mais faseada.
Depois da Semanada, a Mesada.
É um desafio maior. Implica gerir dinheiro durante um período mais longo e, por isso mesmo, pode ser mais interessante para crianças mais velhas e adolescentes que já tenham alguma capacidade de planeamento.
Basta pensar que se recebes 30€ no início do mês precisas de decidir quanto podes gastar e quanto decides guardar. Afinal de contas, se for tudo gasto nos primeiros dias, a espera até à próxima ronda é muito mais longa do que o que acontece com a semanada.
O importante é adaptares o sistema à idade, maturidade e autonomia da criança - e não apenas ao número que aparece no cartão de cidadão.
Como definir um valor de mesada adequado à idade? 🤔
Esta é, provavelmente, a pergunta que mais dúvidas gera nos pais: quanto devo dar de mesada ao meu filho? 🤔💰
A resposta principal é simples: o valor que se ajustar confortavelmente ao teu orçamento familiar. No entanto, as necessidades de uma criança de 7 anos e de um adolescente de 15 são completamente diferentes.
Para teres uma orientação prática, podes consultar as recomendações e valores médios no artigo do Doutor Finanças sobre como ajudar os filhos a gerir as suas finanças. Regra geral, os valores mais comuns costumam seguir esta lógica💡:
- Crianças (6 a 10 anos)🎈: A semanada é a opção mais recomendada (uma semana é um horizonte temporal mais fácil de compreender nesta idade). Valores entre 1€ e 5€ por semana costumam ser o ponto de partida ideal.
- Adolescentes (a partir dos 11-12 anos)🎒: Podes transitar para a mesada. Com o aumento do grau de autonomia e de despesas (como lanches ou saídas com amigos), os valores costumam situar-se entre os 15€ e os 30€ por mês (ou mais, consoante as responsabilidades atribuídas, como pagar o próprio passe de transportes).
O essencial não é a quantia em si, mas sim a consistência e o compromisso: definir um valor fixo ajuda o teu filho a gerir expetativas e a aprender a planear os seus próprios gastos.
Algumas perguntas que te podem ajudar a definir um valor da mesada:
- Para que serve este dinheiro?
- Que despesas deve o teu filho pagar com ele?
- Qual é a idade? E autonomia?
- Queres que uma parte seja poupada?
- Qual é a realidade financeira da vossa família?
☝🏻 Estabelece um valor fixo. Seja uma semanada ou mesada, é importante que o valor atribuído seja sempre o mesmo, salvo em momentos excecionais, em que o podes reforçar.
Ensinar a poupar e a gerir objetivos ✍🏻
Não basta dizer "tens de poupar". Para uma criança, guardar 10€ não tem qualquer significado se não perceber o benefício direto dessa escolha. A poupança só ganha sentido quando está associada a um propósito concreto - seja um brinquedo 🧸, um livro 📚, um videojogo 🎮 ou uma ida ao cinema. 🍿
Para ensinar que o dinheiro não surge do nada nem deve ser gasto no imediato, podes aplicar o conceito de Mesada Inteligente 🧠:
- Associa o valor ao esforço: Define uma lista de tarefas e responsabilidades adequadas à idade. Em vez de uma mesada fixa e passiva, a criança aprende que o dinheiro é conquistado à medida que cumpre os seus compromissos.
- Gestão prática e digital: Utilizar uma metodologia ou plataforma de Mesada Inteligente ajuda a transformar este processo num jogo pedagógico. Pais e filhos conseguem acompanhar as tarefas concluídas, definir metas de poupança e ver o saldo a crescer em tempo real.
Ao envolver o teu filho nesta dinâmica, ensinas-lhe o valor do trabalho, a importância da responsabilidade e a satisfação de juntar dinheiro para alcançar os seus próprios objetivos - no presente e no futuro.
Mas, atenção: é importante que te foques em dois ou três objetivos e não mais do que isso. Quantos mais objetivos, maior será a probabilidade de ele se dispersar ou desistir da poupança.
O método “Spend, Save, Share” pode ajudar a ensinar o teu filho a gerir objetivos. Consiste em criar três “espaços” para o dinheiro.
🛍️ Gastar - fica reservado para o dinheiro que ele pode gastar agora;
🐷 Poupar - para o dinheiro que fica guardado para um determinado objetivo;
🤝🏻 Ajudar - onde ele irá guardar o dinheiro para ajudar outras crianças ou causas solidárias.
👉🏻 A sugestão é que a divisão do dinheiro seja feita segundo a regra dos 50-40-10. Ou seja, 50% para o “mealheiro” do gastar, 40% para o de poupar e 10% para o de ajudar.
A mesada ou a semanada devem ser uma recompensa? 🫂
Idealmente, a mesada, ou a semana, não devem ser condicionadas pelo aproveitamento escolar ou por tarefas adicionais. O que estamos a tentar ensinar aos nossos filhos é como gerir um orçamento. Assim, não faz sentido que essa gestão seja condicionada por prémios ou penalizações.
Quando utilizada como ferramenta de aprendizagem, a mesada educativa pode ajudar os filhos a compreender conceitos como poupança, orçamento e responsabilidade financeira.
🆘 Erros frequentes dos pais ao falar de dinheiro
- Não falar sobre dinheiro: já se tornou claro que privar as crianças de conversas “financeiras” é privá-las de algo muito importante para o seu futuro. Adequando a cada idade, é importante que as incluas. E podes aproveitar situações do quotidiano para isso: seja no supermercado, ao escolher o material escolar ou simplesmente quando ele te pede para comprar alguma coisa;
- Querer controlar todas as compras: é normal que queiras evitar que o teu filho gaste dinheiro em alguma coisa que consideras desnecessária ou fútil. Ainda assim, é importante que o deixes tomar as próprias decisões e aprender com elas. Pequenos erros também ensinam e fazem parte do processo;
- Comparar com amigos ou colegas: cada família tem uma realidade financeira diferente. E a comparação pode trazer consigo uma pressão desnecessária. De forma a evitares esta situação, podes sempre explicar-lhe que o valor da semanada ou da mesada que recebe depende das regras e das possibilidades da vossa família;
- Ter receio de introduzir conceitos financeiros mais complexos: à medida que o teu filho for crescendo e ganhando maturidade, não tenhas receio de lhe explicar conceitos mais elaborados, como investimento, juros ou empréstimos. Inclui-lo em discussões sobre objetivos financeiros da família, como poupar para as férias, para a ida para a universidade, pode ser fundamental para o ajudares a compreender a importância do planeamento;
- Utilizar o dinheiro para avaliar o comportamento: da mesma forma que a mesada ou a semanada não devem ser vistas como uma recompensa, o mesmo acontece quando falamos de castigo. Se o teu filho associar o dinheiro a “portar-se bem” ou “portar-se mal”, isto pode dificultar a tarefa de o ajudarmos a perceber a verdadeira finalidade da literacia financeira.
🎒Como associar o regresso às aulas a hábitos financeiros saudáveis?
O início do ano letivo pode ser uma ótima oportunidade para dar início à implementação destes hábitos. Com o material escolar, por exemplo. Se ainda não compraste todo o material, pode ser produtivo fazerem uma lista em conjunto e perceber aquilo que é mesmo necessário, daquilo que não passa de um desejo. 📝 Podem comparar preços, definir um orçamento e decidir onde faz sentido poupar.
Para os graúdos, podes ir ainda mais longe: se eles já recebem, ou vão receber, uma determinada quantia para gerir - seja semanalmente ou mensalmente - podes ajudá-lo a decidir como alocar esse dinheiro para os lanches, os pequenos gastos, as suas atividades, ou que parte vai para o “mealheiro” da poupança.
E porque o dinheiro é cada vez mais digital…📲
É fundamental que a educação financeira acompanhe esta evolução. Hoje, os pagamentos com cartão, os formulários online e as aplicações fazem parte do dia-a-dia, e desmistificá-los junto dos mais novos é um passo essencial.
À medida que o teu filho cresce, podes introduzir soluções como cartões de débito ou pré-pagos, mas também aplicações de gestão financeira infantil/juvenil. Muitas destas apps funcionam como uma "carteira digital pedagógica": permitem definir tarefas com recompensas, criar mealheiros virtuais para diferentes objetivos e acompanhar as despesas em tempo real. É a forma ideal de transformar a gestão do dinheiro num hábito dinâmico e visual.
⚠️ Até à maioridade, a abertura de contas, a emissão de cartões e o acesso a estas aplicações dependem sempre das condições da instituição financeira e da autorização dos representantes legais.
🗣️ O mais importante é que o teu filho perceba que, pagando com um cartão ou com um telemóvel, isso não significa que o dinheiro seja infinito. As notas ou as moedas desaparecem, mas a despesa continua a existir.
Como começar “A” conversa 💡
Não é preciso um grande alarido. Afinal, é importante tratar o tema com naturalidade. Podes começar com uma simples pergunta: se eu te desse 10€ para esta semana, o que farias com eles?
Talvez ele te diga que gastaria tudo, talvez queira guardar, talvez queira usá-los para oferecer algo a um amigo. O mais importante é que não cedas ao ímpeto de o corrigir de forma imediata. Experimenta antes, confrontá-lo com: então, mas e se quiseres comprar algo na próxima semana? Isto pode abrir a porta para uma conversa interessante e útil sobre poupança, dando então início ao tema.
Também podes tentar um desafio: ajudá-lo a definir um objetivo para o mês e ir acompanhando o progresso, celebrando quando ele for atingido.
Acima de tudo, importa perceber que dar uma semanada ou uma mesada ao teu filho não é, de todo, uma “pequena” decisão. Pode ajudar a desenvolver competências que vão muito para além da gestão de alguns euros. Ele aprende a esperar, a fazer escolhas, a definir prioridades, a poupar, planear, errar e a tentar novamente. Estas aprendizagens são fundamentais para quando chegar a altura de gerir o primeiro salário ou pagar uma renda.
Para além de pensares em “quanto devo dar de mesada”, pensa: “O que é que eu quero que o meu filho aprenda, com este dinheiro que lhe estou a entregar?”.
Estas respostas podem ser muito mais importantes do que o valor que aparece no mealheiro. São verdadeiros ensinamentos para o futuro. Afinal, a criança que educas hoje, será o adulto responsável de amanhã! ☄️
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